sábado, 4 de agosto de 2007

Caso Richarlyson

Sentença absurda
Ainda que eu seja são-paulino e estudante de Direito, ainda que eu trate de um jogador do São Paulo e disponibilize cópia de uma sentença, este post nada tem haver com futebol ou com o Poder Judiciário. Este post trata apenas do pior defeito que um ser humano pode ter: o preconceito.
Há pouco mais de um mês correu um boato na imprensa de um jogador de um grande clube paulista iria divulgar no "Fantástico", da Rede Globo, ser homossexual. Começaram as especulações, até que no programa do "jornalista" Milton Neves o dirigente do Palmeiras José Cyrillo Júnior disse que o tal jogador é o médio-ala do São Paulo Richarlyson. O atleta, amparado pelo clube, deu entrada numa queixa-crime junto a Nona Vara Criminal da Comarca da Capital, presidida pelo Excelentíssimo Juiz de Direito Doutor Manoel Maximiano Junqueira Filho, sob o número 936/07.
Não entendo que a declaração do cartola seja motivo para um processo judicial, todavia é um direito do Richarlyson buscar o Poder Judiciário. O que realmente me surpreendeu e me deixou enojado foi a sentença do referido magistrado, datada do dia 05/07/07.
O juiz inicia a peça afirmando que não entende que a afirmação de Cyrillo consista em objeto à querela proposta pelo atleta. Neste ponto termina o conteúdo jurídico da sentença e inicia-se uma ofensa ao atleta, ao esporte, aos homossexuais e a todos os brasileiros, que usufruem do nosso Poder Judiciário, dizendo que "este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual" e que "Esta situação [homossexualismo], incomum, do mundo moderno, precisa ser rebatida...". O magistrado vai além: "Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação.", porque "o que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio, o ideal...". Não satisfeito, o magistrado prossegue com a sua bestialidade e ignorância ao chamar a homossexualidade de "evidente problema de personalidade, ou existencial".
Sinceramente, como ser humano, defensor dos direitos civis e individuais que sou, fiquei perplexo, indignado com o que este senhor que, ainda que concursado, desonra a toga que veste, pois é uma vergonha que vivamos em uma sociedade que tenha tal pensamento. Generalizo dessa maneira pois tenho plena consciência que, por mais triste que seja, sei que esta não é a posição isolada de um juiz, mas reflete a opinião da sociedade hipócrita e preconceituosa em que vivemos.
Por que é tão importante e tão discriminada a sexualidade, seja de um atleta, um artista ou de um anônimo? É triste, deprimente, ver tantas pessoas que dizem repudiar os horrores de Hitler e da Ku Klux Klan, que as vezes até têm a Bíblia como sua doutrina, corroborem com o entendimento tão arcaico, tão medieval do tal senhor que assinou essa sentença.
Espero, sinceramente, não como estudante de Direito, mas como cidadão de uma nação que se diz tão miscigenada e sincrética, que essa decisão seja um ato isolado, e não uma verdadeira sentença que nos condene a viver em uma sociedade não respeita seus pares, que não respeita o ser humano!


Leia na íntegra a sentença (em PDF, pela Folha Online)

1 comentários:

Hen !? disse...

Adorei seus comentários! Te apoio nos sonhos de nação. Sofro também do desespero de ver os despreparados mandarem no nosso país.

Abs